A diversidade é normal – 21o Fórum de Responsabilidade Social IOS

“A diversidade é normal. O conceito de normalidade é o estabelecimento de um padrão proposto pelo ser humano em um modelo matemático. Ou seja, normal não é natural. A natureza é diversa. “, afirma Renata Andrade, especialista em acessibilidade.

Esse foi o tom do 21o Fórum IOS de Responsabilidade Social, Mitos e Verdades sobre a empregabilidade de pessoas com deficiência visual, realizado ontem no Núcleo IOS em Santana, zona norte de São Paulo.

O Instituto da Oportunidade Social acaba de formar sua primeira turma de pessoas com deficiência visual total e o tema do Fórum não poderia ter sido outro, afinal, agora que todos estão formados, quais são as barreiras que eles enfrentarão na busca pelo emprego?

A abertura do evento foi feita pela gerente de Facilities da Dow Química, Andréa Braune, que trouxe de maneira muito clara o que a empresa faz na prática em busca da inclusão, muito além do cumprimento da Lei de Cotas. No Brasil são 110 funcionários com deficiência, sendo 49 em ambientes de produção e administrativo e 61 no escritório central. Antes mesmo da Lei Brasileira de Inclusão ter sido criada em 2015, a empresa já havia projetos ligados a esse tema (desde 2010), com base nas convenções sobre os direitos das pessoas com deficiência da ONU.

O caso de sucesso da Dow Química demonstra que a inclusão e medidas de acessibilidade são mais do que iniciativas responsáveis de uma área de infraestrutura, é preciso um engajamento da liderança e que ela se mostre receptiva, compreendas as necessidades e inclua, de fato, o profissional com foco em produtividade – o profissional com deficiência deve ser avaliado e cobrado como todos os outros.

Na empresa, a acessibilidade é pensada de forma ampla, sustentável, com soluções de médio e longo prazo para não ter ações “tapa buraco” de curto prazo. Por isso,  o primeiro princípio é não segregar possíveis grupos de pessoas com deficiência que a empresa receberá ao longo do tempo e também que a acessibilidade não deve ser pensada apenas para os postos de trabalho das pessoas com deficiência. Andrea afirma que é preciso pensar na acessibilidade para todas as áreas comuns onde os profissionais vão circular.

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(Renata Andrade, especialista em acessibilidade e desenho universal e Rodrigo Galvão, servidor público da prefeitura de São Paulo)

Para Andrea um estudo de práticas de outras empresas referência pode ser feito como primeiro passo, no entanto, ele é uma ferramenta para que o seu planejamento tenha um caminho inicial. O desenho de uma empresa acessível não deve ter fim, ele terá sempre novas ações e com isso, trace estratégias que sejam viáveis para seu orçamento e capacidade de implementação contínua.

O cenário perfeito para receber uma pessoa com deficiência passa também pela questão do que se espera do profissional. Segundo Rafael Vieira, especialista em Comunicação Corporativa Acessível, palestrante do Fórum, “se a pessoa tiver recursos para trabalhar a criatividade e imaginação terá uma carreira promissora e trará lucro para a empresa.”

E esse tipo de postura é somente para grandes empresas? Claro que não! Natália Betto, diretora da Happy Life, uma empresa de mobilidade acessível, que possui uma frota para atender qualquer tipo de deficiência, apresentou seu projeto de acessibilidade. Ela transpassa o serviço e busca o atendimento às necessidades das pessoas com deficiência em todos os detalhes. E com baixo custo, ou seja, não é desculpa o alto investimento. Natália trouxe exemplos da produção do seu cartão de visitas, do site da empresa, de ações de relacionamento com seus clientes, todas pensadas de uma maneira integrada para que qualquer pessoa, independentemente de ter ou não uma deficiência, consiga ser impactada pelo material de comunicação.

E por falar em investimento, o Fórum foi encerrado com um debate promovido por Renata Andrade, especialista em acessibilidade e desenho universal e Rodrigo Galvão, servidor público da prefeitura de São Paulo, que atua no assessoramento jurídico de licitações e processos.

Para Rodrigo, antes de falar de barreiras é preciso entender que alguns equívocos ainda existem e as empresas devem procurar consultorias que tenham conhecimentos técnicos suficientes para auxiliar seus projetos de acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência. Nem sempre a compra de diversos equipamentos e softwares onerosos são as saídas para a inclusão. Muitas vezes as soluções possuem um custo baixo e resolvem as necessidades da pessoa com deficiência.

Para Renata, mais do que adaptações técnicas, a pessoa com deficiência precisa é passar por uma análise completa da função. É preciso abandonar a avaliação médica e promover uma avaliação biopsicossocial. Mudar o paradigma do pensamento “do que a pessoa cega não sabe fazer” para “o que aquela pessoa cega com suas particularidades pode ou não fazer, de acordo com as capacidades”. Para Renata e Rodrigo, não existem fórmulas mágicas e sim adaptações, que são totalmente necessárias.

A especialista ainda afirmou que ter deficiência faz parte da condição humana, hoje você não é uma pessoa com deficiência, mas, amanhã você pode sofrer um acidente e fazer parte do grupo “dos outros” que considerava antes. Renata ainda provocou: “quem não tem problema com açúcar?”. Diabetes é a principal causa de deficiência visual da atualidade.

Renata abordou o tema da acessibilidade de forma bastante objetiva quando relembrou aos espectadores: pessoas com deficiência são um público consumidor, eles podem apoiar a sua empresa a ter lucro consumindo os seus produtos: você vai se esquecer delas? E sim, nesse momento deve haver um investimento financeiro para ser acessível, e fazer direito de uma só vez sai mais barato “puxadinho é sempre mais caro e mais feio”.

Para a especialista, ser uma empresa acessível é uma questão de ética e não de responsabilidade social. Um comparativo utilizado por Renata foi com relação à mão de obra escrava: é uma obrigação ética e legal. Empregar uma pessoa com deficiência também deve ser uma preocupação ética da empresa e não somente legal. Receber prêmios por ser uma empresa acessível não quer dizer nada, acessibilidade é papel das empresas e hoje nenhuma delas ainda é, segundo Renata. Em pesquisa realizada pela especialista, os profissionais com deficiência não indicam suas empresas para nenhum outro profissional com deficiência, pois o modelo de atendimento médico ainda é o vigente e não o biopssicosocial.

Promover a inclusão deve ser mais do que um projeto de recursos humanos, deve ser parte da estratégia da empresa, e segundo todos os palestrantes do Fórum, os custos não são impeditivos, mas, balizadores do que deve ser priorizado ao longo do tempo.

 

 

 

 

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