“Geração Nem Nem” é muito mais “Geração Sem Sem”

Pollyanna Rodrigues da Silva Flores

Muito comum ouvirmos falar sobre os jovens como a “Geração Nem Nem”. Aqueles que nem estudam e nem trabalham. Eu trabalho com jovens já há alguns anos, sendo 8 deles no Instituto da Oportunidade Social, e esse termo sempre me incomodou. Traz uma carga negativa enorme, reforçando um estereótipo de um sujeito de desvio, que causa problemas.

Quem é esse jovem que nem estuda e nem trabalha e que não quer nada com nada?

Acabei de defender minha pesquisa de mestrado e o tema principal era sobre formação profissional gratuita, para jovens em situação de vulnerabilidade social, oferecida por uma instituição do terceiro setor. Com esse estudo, tive a oportunidade de me debruçar mais sobre o assunto e ler diversos outros pesquisadores que lidam com temáticas ligadas à educação, juventudes e trabalho.

Em paralelo, realizei uma disciplina isolada na UFMG sobre “Juventudes na contemporaneidade: escolas, culturas juvenis, relações raciais e de gênero”. Lá, pude conhecer a professora e doutora Juliana Batista dos Reis que também integra o Observatório da Juventude, um programa da UFMG, voltado para a pesquisa de jovens. Ela tem um ótimo conhecimento sobre o tema e sugeriu textos e vídeos muito importantes e que agregaram ainda mais conhecimentos à disciplina.

Mergulhada nesse universo, busquei me aproximar, ouvir e entender um pouco mais, principalmente sobre o jovem periférico, sobretudo negro, com uma renda per capita inferior a meio salário mínimo.  Esse jovem não é esse estigmatizado que querem nos passar. Para esse jovem, muitas vezes, é negada a opção de escolher entre estudar e ou trabalhar (de maneira formal, especialmente).

Para esse jovem, a relação com o trabalho acontece desde muito cedo como algo necessário e por vezes obrigatório, seja porque precisa ajudar a família, seja para seu pertencimento aos diversos grupos que faz parte. Muitos deles enfrentam o desafio de parar de estudar para trabalhar, na maioria das vezes, na informalidade e às vezes até de forma ilegal.

O cenário social e econômico acaba por estimular os jovens a ingressarem no mercado de trabalho por meio da informalidade,  com salários baixos, com cargas horárias exageradas, sem valorização das suas habilidades, o que acaba desestimulando a continuar no trabalho.

Esse jovem muitas vezes tenta continuar estudando, mesmo que no horário noturno e mesmo que participando de programas de educação não convencionais como o EJA (Educação de Jovens e Adultos), por exemplo. Mas, a dupla e tripla jornada desanimam e, novamente, o estudo é deixado de lado.

As meninas ainda enfrentam desafios como a gravidez precoce e atuação em atividades domésticas, desde muito cedo. Muitas se veem obrigadas a cuidar de seus irmãos menores para que suas mães possam trabalhar e sustentar a casa. Mães que estatisticamente são consideradas os arrimos da família.

A exploração da felicidade instantânea e do consumismo exagerado nas mídias sociais – onde hoje os jovens passam grande parte do tempo – colaboram para esse sentimento de impotência e inferioridade desse sujeito ainda em formação.

Então essa tal “Geração Nem Nem”, que aponta para o jovem que pode ter o direito entre escolher não estudar e não trabalhar, eu desconheço. O jovem que eu tenho a oportunidade de conhecer a cada dia um pouco mais, traz a realidade muito mais próxima de uma “Geração Sem Sem” (se é que podemos nomear algo tão complexo e dinâmico), onde as juventudes estão tendo que viver “sem perspectiva” e “sem oportunidade”.

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Foto: Rodrigo Rodrigues

Quer fazer algo por essa geração?

  • Conheça e apoie projetos sociais que valorizam os jovens;
  • Ouça o que eles têm a dizer;
  • Crie oportunidades em sua empresa, como vagas para jovens (independente da Lei da Aprendizagem);
  • Seja voluntário em ONGs que atuam com jovens e busque as melhores formas de atuar (se você também passou por desafios na juventude, é uma boa forma de se aproximar);
  • Ofereça apoio em projetos que possam ser desenvolvidos na comunidade desse jovem, promovendo o protagonismo dele e o desenvolvimento local;
  • Apoie os programas, seja lei de cotas ou de financiamento para a entrada desses jovens em faculdades.

O que atinge esse jovem que o faz ficar sem estudar e sem trabalhar, é uma questão estrutural do nosso país e isso não será resolvido a curto prazo. Apoiar e ou promover ações efetivas voltadas para a transformação real na vida dos jovens é a melhor forma de fazermos com que a realidade deles também se transforme. Seja em relação ao mercado de trabalho ou à educação precisamos agir e ver o que pode ser feito de forma que essa geração tenha oportunidades e assim perspectivas de um futuro.

Sugestão de leitura: CARDOSO, A. Juventude, trabalho e desenvolvimento: elementos para uma agenda de investigação. Salvador, Caderno CRH, v. 26, n. 68, p. 293-314, maio-ago 2013. http://www.scielo.br/pdf/ccrh/v26n68/a06v26n68.pdf

 

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Pollyanna Rodrigues da Silva Flores, líder de projetos sociais no IOS BH.

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