Qualificação e produtividade: um caso de amor platônico?

Uma discussão pouco vista no mercado é a relação entre a qualificação de mão-de-obra e a produtividade. O Council of the Americas, a JP Morgan Chase Foundation e a FGV/Clear promoveram um desses momentos únicos de discussões na última quinta-feira, 11 de maio, em São Paulo.

O debate foi em meio a apresentação dos resultados da pesquisa “New Skills at Work: Skills Development Driving Economic Growth” (Novas Habilidades no Trabalho: desenvolvimento das habilidades conduzindo o crescimento econômico). O estudo identificou os setores de alto crescimento no estado de São Paulo, suas necessidades por talentos e o descasamento de habilidades que enfrentam.

O evento contou com painéis de e líderes empresariais de diversos setores, e o consenso é que há muito por ser feito para que o casamento – ainda que imperfeito – entre a qualificação e produtividade seja possível.

A abertura do evento foi feita pelo CEO da JP Morgan, José Berenguer e também pelo CEO da Arcos Dorados (maior rede de franquias do McDonald’s no mundo), Sérgio Alonso. “Somos uma empresa presente em 20 países na América Latina e Caribe, com mais de 90 mil funcionários, sendo 35 mil somente no Brasil. Somos uma das empresas que mais contratam para o primeiro emprego”.

Sérgio Alonso aproveitou a oportunidade para anunciar o projeto Talentos do Futuro em Tecnologia, uma parceria entre a JP Morgan Chase Foundation, Arcos Dorados e o Instituto da Oportunidade Social (IOS) para a capacitação de 260 jovens, sendo cerca de 112 funcionários da rede. Durante a duração do curso (10 meses), os funcionários da Arcos Dorados e demais alunos, aprenderão conteúdo técnico em Tecnologia da Informação, como programação e linguagens de sistemas, aliado ao desenvolvimento de competências socioemocionais. Os jovens também estarão em contato com especialistas de diferentes empresas que compartilharão suas experiências de carreira na área. “O objetivo é dar a chance do jovem entrar no mercado formal de trabalho”, concluiu Alonso.

Para André Portela, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, a partir das mudanças estruturais no mercado de trabalho por conta da tecnologia nascem novas funções e outras deixam de existir. Por isso, mais do que necessária a capacitação de jovens, que para o profissional, devem ser orientados como se fossem imigrantes em novos países. A família e a escola precisam entender que a realidade de vida da juventude é completamente diferente no cenário mundial que vivemos.

A pesquisa

O que é visto hoje, e comprovado pelos resultados da pesquisa, é que há um descasamento entre a produtividade da empresa e a produtividade do empregado. Elas andam em ritmos diferentes e não raramente se divorciam. Desta forma, é extremamente complicado propor uma agenda que una essas duas frentes.

O estudo priorizou o estado de São Paulo, pela sua importância econômica para o país (o estado concentra 30% do total dos postos de trabalho eliminados no Brasil). Em comparação com outros estados ele desempenha um papel importante na recuperação econômica. Foram escolhidos três setores para o estudo: Indústria Alimentícia, Saúde e Tecnologia, com uma amostra de 417 empresas.

Uma das constatações é que somente 10% dos alunos matriculados no Ensino Médio estão cursando Nível Técnico. Frente aos que ingressam no mercado de trabalho outra constatação é não estão totalmente preparados para executar as tarefas solicitadas pelo setor produtivo. Nesse cenário 40% das empresas afirmam que tem dificuldade para preencher vagas em nível técnico. No setor de alimentos o turnover é muito grande. No setor de TI as empresas contratam profissionais com nível superior porque não encontram jovens com nível técnico para atendê-los. Esse desencontro é uma das principais razões da falta de produtividade e no Brasil, o índice é menor do que em muitos países da América Latina.

Marcos Lisboa, presidente do Insper, instituição de ensino superior e pesquisa, abordou justamente a questão da produtividade da indústria brasileira e trouxe os seguintes dados: comparando o PIB per capita entre países parecidos com o Brasil, todos eles cresceram 2% desde 2010 e o Brasil foi o único com queda. A produtividade do Brasil vem caindo há 40 anos e umas das razões é que a proporção de empresas ineficientes é maior do que em países com o mesmo perfil. Quanto mais empresas ineficientes, maior é a pobreza e menor é a produtividade do país.

Para Luiz Eduardo Leão, gerente de tecnologias educacionais do SENAI, a educação ainda é voltada ao conteúdo e não ao aprendizado de competências, ou seja, de que maneira fazer com que o jovem seja qualificado para o mercado de trabalho, quando a sua exigência são exatamente as experiências dos profissionais, suas competências? Um dado bastante impressionante é que dos alunos formados no ensino médio, somente 17% ingressam na universidade, e o restante não procura ao menos um curso técnico.

No painel sobre soluções inovadoras para desenvolvimento de habilidades, Rita Pellegrino, diretora de Recursos Humanos da TOTVS, enxerga que o mercado de contratação para TI é complexo, afinal, além das questões técnicas, existe a própria evolução da tecnologia que é exigente por si só. A dificuldade da Companhia em encontrar profissionais técnicos capacitados foi um dos pontos que deu origem ao Instituto da Oportunidade Social em 1998, que surgiu da missão de qualificar jovens que formariam o capital humano da empresa e do seu ecossistema – um verdadeiro investimento social estratégico da empresa.

No mesmo debate, Jaime Schlittler Silva Filho, da rede D’Or São Luiz, pontuou sua preocupação com a deficiência técnica e comportamental dos jovens profissionais, levando o turnover da sua empresa a faixa de 10% e por decisão da própria rede.

O evento foi encerrado com a presença da secretária executiva do Ministério da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, e Hélcio Tokeshi, secretário da fazenda do Governo de SP. Na exposição dos representantes do poder público foi possível compreender que os jovens necessitam de capacitação, mas não do que vem sido oferecido há mais de 20 anos pelo mercado. O cenário da educação deve ser revisto e adequado ao que as empresas precisam hoje e vão buscar no futuro. E essa revisão deve levar em consideração que muito mais do que ampliar capacidades técnicas, as habilidades socioemocionais são as habilidades que mais impactam na contratação e na manutenção dos profissionais nas vagas, e elas sim devem fazer parte das grades curriculares disponíveis para os novos e futuros profissionais. O debate multidisciplinar para que o casamento entre o que empresa precisa (produtividade) e a formação dos jovens (qualificação) é urgente e inevitável, ele será imprescindível para apoiar a volta do nosso crescimento econômico.

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